domingo, 10 de julho de 2011

DOIS GRANDES LOBOS

Existe uma antiga história dos índios cherokee sobre o cacique de uma grande
aldeia. Um dia, o cacique decidiu que era hora de orientar o seu neto favorito
sobre a vida. Ele o levou para o meio da floresta, fez com que se sentasse sob
uma velha árvore e explicou, “Filho, existe uma batalha sendo travada dentro da
mente e do coração de todo ser humano que vive hoje. Embora eu seja um velho e
sábio cacique, o líder da nossa tribo, essa mesma batalha é travada dentro de
mim. Se você não souber dessa batalha, ela o fará perder o juízo. Você nunca
saberá que direção tomar. As vezes vencerá na vida e, depois, sem entender o
porquê, perceberá que está perdido, confuso, com medo, arriscado a perder tudo o
que trabalhou tanto para ganhar. Você muitas vezes achará que está fazendo a
coisa certa e depois descobrirá que fez as escolhas erradas. Se você não
entender as forças do bem e do mal, a vida individual e a vida coletiva, o
verdadeiro eu e o falso eu, você viverá a vida todo num grande tumulto.
“E como se existissem dois grandes lobos vivendo
dentro de mim; um é branco e o outro é preto. O lobo branco é bom, gentil e não
faz mal a ninguém. Ele vive em harmonia com tudo à sua volta e não se ofende se
a intenção não era ofender. O lobo bom, sensato e certo de quem ele é e do que é
capaz, briga apenas quando essa é a coisa certa a fazer e quando precisa se
proteger ou à sua família, e mesmo então ele faz isso da maneira certa. Ele toma
conta de todos os outros lobos da matilha e nunca se desvia da sua natureza.

“Mas existe o lobo preto também, que vive dentro
de mim, e esse lobo é bem diferente. Ele é ruidoso, zangado, descontente,
ciumento e medroso. Basta uma coisinha para que ele se encha de fúria. Ele briga
com todo mundo, o tempo todo, sem nenhuma razão. Ele não consegue pensar com
clareza, porque a sua ganância para ter sempre mais e a sua raiva e a sua ira
são grandes demais. Mas trata-se de uma raiva infrutífera, filho, porque ela não
muda nada. Esse lobo só procura confusão aonde quer que vá, e por isso sempre
acaba achando. Ele não confia em ninguém, por isso não tem amigos de
verdade.”

O velho cacique ficou sentado em silêncio durante
alguns minutos, deixando que a história dos dois lobos penetrasse na mente do
jovem neto. Então ele lentamente se curvou, olhou fixamente nos olhos do menino
e confessou, “As vezes, é difícil viver com esses dois lobos dentro de mim, pois
eles brigam muito para dominar o meu espírito”.

Cativado pela história do ancião sobre essa
grande batalha interior, o menino puxou a tanga do avô e perguntou, ansioso,
“Qual dos dois lobos vence, vovô?” E com um sorriso cheio de sabedoria e uma voz
firme e forte, o cacique diz, “Os dois, filho. Veja, se eu escolho alimentar só
o lobo branco, o preto ficará à espreita, esperando o momento em que eu sair do
equilíbrio ou ficar ocupado demais para prestar atenção às minhas
responsabilidades, e então atacará o lobo branco e causará muitos problemas para
mim e nossa tribo. Ele viverá sempre com raiva e brigará para atrair a atenção
pela qual tanto anseia. Mas, se eu prestar um pouquinho de atenção no lobo
preto, compreendendo a sua natureza, se reconhecê-lo como a força poderosa que
ele é e deixá-lo saber que eu o respeito pelo seu caráter e o usarei para me
ajudar se um dia eu ou a tribo estivermos em apuros, ele ficará feliz, e o lobo
branco ficará feliz também, e ambos vencerão. Todos venceremos”.

Sem entender direito, o menino perguntou, “Não
entendi, vovô. Como os dois lobos podem ganhar?” O cacique continuou a
explicação: “Veja, filho, o lobo preto tem muitas qualidades importantes de que
eu posso precisar, dependendo das circunstâncias. Ele é feroz, determinado, e
não se deixará subjugar nem por um segundo. Ele é inteligente, astuto e capaz
dos pensamentos e estratégias mais tortuosos, o que é importante em tempos de
guerra. Ele tem os sentidos aguçados e superiores que só aqueles que olham
através da escuridão podem apreciar. Em meio a um ataque, ele poderia ser o
nosso maior aliado”. O cacique então tirou da sua bolsa alguns pedaços de carne
defumada e colocou-os no chão, um à direita e o outro à esquerda. Ele apontou
para a carne e disse, “À minha esquerda está a comida para o lobo branco e à
minha direita está a comida para o lobo preto. Se eu optar por alimentar os
dois, eles não brigarão mais pela minha atenção, e eu poderei utilizar cada um
deles como precisar. E como não haverá guerra entre eles, poderei ouvir a voz da
minha sabedoria profunda e escolher qual dos dois pode me ajudar melhor em cada
circunstância. Se a sua avó quer uma carne para fazer uma refeição especial e eu
não cuidei disso como deveria, posso pedir para o lobo branco me emprestar a sua
magia e consolar o lobo preto da sua avó, que estará zangada e faminta. O lobo
branco sempre sabe o que dizer e me ajudará a ser mais sensível às necessidades
dela. Veja, filho, se você compreender que existem duas grandes forças dentro de
você e respeitar a ambas igualmente, as duas sairão ganhando e haverá paz. A
paz, meu filho, é a missão dos cherokees – o propósito supremo da vida. Um homem
que tem paz dentro de si tem tudo. Um homem dividido pela guerra em seu íntimo
não tem nada. Você é um jovem que precisa escolher como vai lidar com as forças
opostas que vivem no seu interior. A sua decisão determinará a qualidade do
resto da sua vida. E quando um dos lobos precisar de atenção especial, o que
acontecerá às vezes, você não terá do que se envergonhar; poderá simplesmente
admitir isso para os anciãos e conseguirá a ajuda de que precisa. Quando isso
for de conhecimento público, aqueles que já travaram essa mesma batalha podem
oferecer-lhe a sua sabedoria”.

Essa história simples e pungente explica como é a
experiência humana. Cada um de nós está em meio a uma batalha contínua, em que
as forças da luz e da escuridão competem pela nossa atenção e pela nossa
submissão. Tanto a luz quanto a escuridão habitam dentro de nós ao mesmo tempo.
Verdade seja dita: existe uma matilha inteira de lobos dentro de nós – o lobo
amoroso, o lobo bondoso, o lobo esperto, o lobo sensível, o lobo forte, o lobo
altruísta, o lobo generoso e o lobo criativo. Junto com esses aspectos positivos
existem o lobo insatisfeito, o lobo ingrato, o lobo autoritário, o lobo
desagradável, o lobo egoísta, o lobo indecente, o lobo mentiroso e o lobo
destrutivo. Todo dia temos a oportunidade de reconhecer todos esses lobos, todas
essas partes de nós mesmos, e escolher como iremos nos relacionar com cada um
deles. Será que continuaremos condenando alguns e fingindo que eles não existem
ou vamos tomar posse de toda a matilha?

Por que sentimos a necessidade de negar a matilha
de lobos que vive em nós? A resposta é fácil. Ou achamos que ela não existe ou
que não deveria existir. Tememos que, se admitirmos todos os diferentes eus que
ocupam espaço na nossa psique, de algum modo seremos rotulados de esquisitos,
diferentes, prejudiciais ou psicologicamente fragmentados. Achamos que devemos
ser pessoas boas e “normais”, dentro das quais só mora um único eu. Mas existem
muitos eus e a recusa em entrar em acordo com eles é um grave erro – que nos
levará a cometer atos estúpidos e temerários de autossabotagem.

Eis o grande segredo: existem muitos eus contidos
dentro do nosso “eu”, pois dentro de cada um de nós existem todas as qualidades
possíveis. Não há nada que possamos ver e nada que possamos julgar que não
exista dentro de nós. Todos somos luz e escuridão, santos e pecadores, pessoas
adoráveis e abomináveis. Somos todos gentis e calorosos, mas também frios e
cruéis. Dentro de você e dentro de mim existem todas as qualidades conhecidas
pela espécie humana. Embora possamos não estar conscientes de todas as
qualidades que possuímos, elas estão adormecidas dentro e nós e podem despertar
a qualquer momento, em qualquer lugar. A compreensão disso nos permite entender
por que todos nós, que somos “bons”, somos capazes de fazer coisas ruins e, mais
importante, por que às vezes nos tornamos os nossos piores inimigos.

Baseado em: “Como entender o efeito sombra em
sua vida” de Debbie Ford.

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